Eva Furnari e Pedro Bandeira, um encontro com a palavra
Postado em 13 DE agosto DE 2019
[ Formiguinhas ]
Eva - "Para mim, os professores, os educadores e os bibliotecários são parceiros. Eles são esses heróis anônimos que trabalham no dia a dia, como formiguinhas, com as crianças. Os escritores também são assim. Me sinto, por isso, um pouco parceira deles.”
Pedro – “Sem vocês, bibliotecárias, educadores, não há futuro no Brasil. Vocês fazem a mediação da leitura, e é por isso que eu tenho esperança. Seduzir, contar histórias, ver que ali existe um mundo maravilhoso, conquistar o frequentador... Eu fico impressionado que às vezes vocês fazem verdadeiros milagres! ”
[ Liberdade e compreensão do mundo ]
Eva – “A literatura infantojuvenil é um espaço com liberdade intrínseca, onde o foco principal é o ser humano. Possibilita discutir a condição humana. Não está a serviço de nada. Aceita as nossas contradições, nossos conflitos e lida com isso. Na democracia precisamos aprender um monte de coisas sobre o mundo e o livro infantil é uma boa fonte para isso. ”
Pedro – “Os contos de fadas e as histórias maravilhosas são fundamentais para a formação das pessoas. ‘João e Maria’ lida com o medo universal das crianças do abandono pelos pais. A história é uma representação da realidade que faz a criança sentir o problema sem ter que vivê-lo na realidade. Este processo de conhecer o mundo faz com que as pessoas amadureçam. ”
[ Tecnologia – sim, e daí? ]
Eva – “Os eletrônicos são viciantes, sedutores. O cérebro anda à jato e o corpo e a alma andam a pé. E a literatura pode ajudar nesse equilíbrio. Ela traz o tempo de sonhar, do andar a pé, de devolver a integridade à humanidade”.
Pedro – “A culpa do assassinato não é da faca. A tecnologia só veio para ajudar, não ameaça os livros. Como a roda e a domesticação do grão, a internet mudou o mundo. Nunca se fechem para a tecnologia”.
[ Onde tudo começou ]
Eva – “Eu fui uma criança introvertida, com 8,5 graus de hipermetropia. Minha mãe nos contava histórias. Eu olhava as imagens. Aos 14 anos fiz aulas particulares de aquarela. Venho de uma família, com físicos, químicos, engenheiros. Eu mesma, antes de estudar arquitetura, frequentei por um ano a Faculdade de Física. Me dei bem na arquitetura porque tinha a continuidade com a lógica, mas também uma parte importante de sensibilidade artística. ”
Pedro – “Estudei Ciências Sociais e fui parar no jornalismo por acaso. Trabalhando na Editora Abril, escrevia revistinhas que circulavam em bancas. Dali para os livros foi um pulo. E então, comecei a escrever obras que eram adotadas pelas escolas. Estudei pedagogia e psicologia do desenvolvimento para entender melhor as crianças. Eu não tive pai e minha mãe não tinha grande cultura. Mas eu adormecia ouvindo histórias no colo. Isso para mim foi muito importante. Aprende-se a ler, lendo. É como andar de bicicleta e nadar. Precisa praticar".
[ O leitor ]
Eva – “Hoje o texto e a imagem andam de mãos dadas e as histórias começam no computador, nas palavras. Existem rascunhos complexos para chegar à simplicidade da aquarela e entre outros, os desenhos das crianças me influenciam bastante”.
Pedro – “A minha fonte é o leitor. Eu tenho que saber qual é a faixa etária para a qual eu estou escrevendo, para, a partir dali, criar as histórias. Só assim vou compreender o universo emocional, o repertório do leitor com todas as suas nuances”.
[ O desafio ]
Eva – “O cerceamento é comum. Eu tinha uma ideia de ilustração que não combinava com o que eu fazia, mas achava que eu devia fazer. Essa busca é a conquista de uma vida inteira”.
Pedro – “Shakespeare escreveu em 1600, e continua sendo atual. Ele é importante não porque fala de reis, mas porque aborda os sentimentos humanos. A minha literatura trata de emoções, que são sempre as mesmas".
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