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O Webinar Planejando a retomada: estratégias e medidas de preparação de bibliotecas pós-pandemia, realizado em 15 de maio, já teve mais de 4.900 visualizações no Youtube, onde também foi transmitido, além da plataforma Zoom, o que demonstra o grande interesse do setor pelo tema. O encontro online, que contou com inscrições de 423 municípios de todos os Estados brasileiros e do Distrito Federal, visou o compartilhamento de cenários, experiências e práticas que têm sido desenvolvidos para o momento de volta de serviços, ações e programações culturais nos espaços físicos. Questões como protocolos e estratégias foram abordadas pelas palestrantes Adriana Ferrari, Sueli Motta e Valéria Valls, com a mediação de Pierre André Ruprecht, diretor executivo da SP Leituras.

Esta conversa, como salientou o mediador, caracterizou-se como início de um diálogo, de uma troca de informações sobre as ações das bibliotecas e, em especial, das de acesso público. Como disse Pierre, é muito evidente que não se trata de momento de sair do isolamento, mas também está claro que precisamos, enquanto trabalhamos e servimos a população remotamente, pensar em como se dará esse retorno às atividades presenciais, quando isto for possível. E estes planos devem ter como base a missão básica das bibliotecas, na opinião do mediador, que é a de garantidora de direito de acesso à informação de qualidade e à leitura. Para ele, não existe uma receita de bolo pronta para essa retomada; cada espaço vai ter que pensar olhando para sua comunidade e para o que é importante para ela.

Valéria Valls, diretora da Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FaBCI/FESPSP), foi a primeira a falar depois da apresentação de Pierre e destacou o papel de todos os profissionais que atuam nas bibliotecas neste cenário. Valéria traçou uma linha do tempo, apontando que, em março, vivíamos a incerteza, a volatilidade, a ambiguidade e as pessoas vinham procurando se adaptar à nova realidade imposta pela pandemia e a este mundo digital, além das mudanças das próprias relações interpessoais. Diante do turbilhão de alterações impresso pela realidade, a sensação tem sido a de estar em uma montanha-russa cheia de loopings, como salientou ela. Para a palestrante, além de estarmos preocupados com a área e o trabalho em si, devemos olhar para as comunidades atendidas por nossas bibliotecas, principalmente aquelas que recebem pessoas em situação de vulnerabilidade social, abordando, assim, também a questão da exclusão digital. “A gente sabe que muitos dos nossos produtos e serviços são analógicos – principalmente na biblioteca pública, na escolar”, lembrou, destacando que, diante dos novos desafios, este tempo configura-se no de construir e pavimentar caminhos outros que liguem os espaços ao público e ainda de importante re-significação de muitas profissões. Necessário agora é relembrar o propósito dos bibliotecários, acrescentou, remetendo ao juramento da categoria: “prometo tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de bibliotecário, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana”. Valéria encerrou sua palestra, conclamando os participantes a difundirem a informação confiável, o esclarecimento. “Acho que o bibliotecário pode ser a máscara para proteger a nossa sociedade de tanta informação indevida e tanto negacionismo”, finalizou.

Por sua vez, Sueli Motta, superintendente de biblioteca da SP Leituras (gerenciando a Biblioteca de São Paulo e a Biblioteca Parque Villa-Lobos), centrou sua exposição nas estratégias para este planejamento de retomada. Apontando oportunidades (entre elas, estímulo à equipe e à criatividade, a integração das áreas e o conhecimento de novas tecnologias) e fraquezas do contexto atual, ela identificou, como um dos maiores desafios, o de trabalhar a construção de cenários a curto prazo, sem um horizonte definido. E, aqui, as dificuldades foram sendo relacionadas uma a uma como, por exemplo, a manutenção da conexão com os frequentadores das bibliotecas (em especial, aqueles públicos sem acesso remoto, retomando a questão da exclusão digital apontada anteriormente no webinar, além da vulnerabilidade social), a mobilização da equipe em home office e o repensar das práticas de trabalho e da matriz da própria programação a distância. “A gente sabe que não é só colocar o conteúdo na internet: que conteúdo, em que momento?”, questionou. E por onde começar? Sueli frisou que acredita que essas respostas devem ter início neste olhar para a missão da biblioteca, gerando, a partir daí, planos que considerem acesso, serviços e público (mapear quais são as ações dirigidas para cada segmento, por exemplo). Sueli relatou o que a SP Leituras vem fazendo, compartilhando ideias como a criação de grupos de trabalho para buscar soluções viáveis, a conexão com a rede socioassistencial de saúde para manter ações iniciadas em territórios ou propor novas iniciativas (inclusive com a produção de material e kits de livros para o público dos albergues, por exemplo), o contato com instituições parceiras (centros de acolhida, abrigos, entre outros), a formação de um calendário de atividades virtuais, a discussão com o fornecedor de software de gestão de acervo para inclusão de módulo de quarentena para a devolução das obras etc.

A última apresentação foi de Adriana Ferrari, chefe técnica da Biblioteca Florestan Fernandes e presidente da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários Cientistas da Informação e Instituições (Febab), que propôs a reflexão a partir da necessidade, mais do que nunca, de criação do advocacy das bibliotecas. Adriana destacou o que vem sendo feito pela IFLA (International Federation of Library Associations and Institutions) neste sentido, ressaltando o reposicionamento e a reafirmação da importância do setor. “A IFLA tem dito: nas circunstâncias atuais, é vital que todos estejam juntos para permitir continuar lendo, aprendendo e pesquisando e também garantir que nós possamos minimizar os efeitos a longo prazo desta interrupção de nossas culturas, sociedades e economias”. Adriana acredita também que, nestes exercícios referentes à futura retomada, precisamos reafirmar e defender a importância das bibliotecas como parceiras estratégicas para o cumprimento dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU) e sermos vigilantes dos direitos dos cidadãos, que, por conta da pandemia, estão sendo afetados ou suspensos. Nesta construção dos protocolos, ela insiste que tudo deve partir do “pensar” os territórios onde estão as bibliotecas porque não adianta termos recomendações que indiquem a necessidade de uma gama de insumos que não dispomos, por exemplo. Adriana cita a hipótese de um possível revezamento de atendimento em bibliotecas: como essa manobra seria executada em equipamentos com só funcionário? Todas as recomendações de higiene, em geral, também podem ser ponto de partida para outro questionamento: as bibliotecas conseguiriam manter os ambientes limpos, seriam necessários parceiros locais para esta empreitada, haveria recurso para tanto? Isso, sem falar na distribuição dos EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) para a equipe e para os frequentadores. Ela instiga: “nós vamos abrir a biblioteca para que serviços e para quem?”. Vem dela também o olhar sensível da resposta: principalmente para quem mais precisa dela, a população mais vulnerável!

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