Foto Equipe SP Leituras: “Os sarauzeiros” – nome criado pelo grupo que participou e produziu o seu próprio sarau durante a Oficina que aconteceu na Biblioteca de São Paulo.

“Um sarau é uma festa! ” Foi assim que o escritor e educador Rodrigo Ciríaco deslanchou a oficina sobre a pedagogia dos saraus que aconteceu no dia 10, na Biblioteca de São Paulo. Após algumas noções teóricas e dicas, os participantes arregaçaram as mangas e partiram para a prática, criando seu próprio grupo “Os sarauzeiros”, com direito a cortejo, mestre de cerimônias, produtores e poetas.

“É uma atividade que encoraja, é construção pedagógica, artística, cultural e política”, diz o professor de História que descobriu a potência dos saraus quando ainda atuava em escolas públicas de Ermelino Matarazzo, bairro da Zona Leste de São Paulo. Ele percebeu que a criatividade poderia ser uma ferramenta eficaz para derrubar o tédio e o desinteresse dos alunos. Ali, há mais de uma década, surgiu o encantamento pelo sarau e, por consequência, o incentivo à leitura e à escrita.

O sarau na escola ou na biblioteca não é só mais uma tarefa a ser executada, mas uma atividade coletiva que entusiasma e promove a identidade de quem participa. Na sua dinâmica de funcionamento, o público não é apenas espectador, mas artista. É da relação com o texto – de poesia ou prosa – que surge em cada participante o desejo de falar em voz alta, de compartilhar com o grupo. Assim, cada leitor é a alma do sarau, é pessoa chave para desenvolver o processo.

Na Biblioteca do CEU Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, a prática de saraus é conhecida da comunidade. Mas a bibliotecária Paula Felice, ao se inscrever na oficina de capacitação, buscava aperfeiçoar suas técnicas. “Com a troca de conhecimento, tanto com o palestrante como com as outras pessoas, podemos perceber os nossos erros e acertos e identificar onde podemos melhorar o nosso trabalho”. É dele a frase: “Os saraus são bibliotecas sonoras”, publicada em seu livros Vendo Pó…esia!

A roda gira

Os saraus nem sempre foram assim. Nasceram elitistas, ao desembarcarem no Brasil com Dom João VI e a coroa portuguesa, como uma atividade cultural privada. E por aqui se transformaram, e muito. Em sua nova abordagem, o sarau saiu da Casa-Grande e caiu no gosto do povo. Das escolas, das bibliotecas, das periferias urbanas. “A gente não inventou a roda, mas colocou ela para girar! ”, diz Ciríaco.

Mas e afinal, por que sarau?

O sarau, a leitura e a literatura estão intrinsecamente ligados e, juntos, apontam para um caminho possível, como considerou Ciríaco, diante de um público de bibliotecários e educadores que participaram da capacitação promovida pelo Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo (SisEB). “Eu penso o sarau como um espaço de transformação. E uma pedagogia da cidadania – com todas e todos juntos – com respeito, afeto, escuta, palavras caras”.

Na Biblioteca Municipal Orobó Jardim Guaracy, em Guarulhos, não há sarau na programação. E isso motivou a bibliotecária Deborah de Souza a participar na oficina. “Eu queria aprender para colocar em prática. Mas o que eu não sabia é que seria tão agradável e que, pessoalmente, eu iria me divertir tanto com a prática”.

O sarau abre brechas sociais e estéticas. Não-leitores convictos podem se tornar leitores entusiasmados, neste país onde 44% da população não tem o hábito da leitura (Retratos da Leitura, 2016), estimulados por textos cujo conteúdo se relaciona com a sua realidade. E também podem se tornar artistas, que experimentam e inovam com a linguagem. E desenham novos horizontes.

Dez dicas para realizar o seu sarau!

  1. Simplicidade – o principal material do sarau é humano.
  2. Comida – tem gente que vem pela comida e fica pela poesia.
  3. Inspiração – não precisa ser escritor, poeta, bibliotecário. Precisa ser leitor que quer fazer mediação de leitura e formar outros leitores.
  4. Preparação – pesquisar, escolher livros, textos, excertos, arsenal bélico ilimitado – clássicos, preferências pessoais, literatura marginal.
  5. Decorar – estudar o texto, as palavras. Poesia é sedução. Literatura é conquista.
  6. Parceiros – formar um grupo, pode ser pequeno, apresentar a ideia. Dividir responsabilidades dá sensação de pertencimento.
  7. Produção – um pouco de preparação, mas não demais. Sarau não é show de talentos.
  8. Filtrando os textos – tempo ideal de um texto apresentado no sarau: 1 a 3 minutos. Tempo total máximo: 1 hora.
  9. Toques básicos – contato visual, volume da voz e ritmo da fala.
  10. 10. Apresentador – controla o ritmo, equilibra quando dá uma caída.