O Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo (SisEB) promoveu a oficina Fab Lab: como fazer livros artesanais, que aconteceu na última terça-feira (06/03), no auditório da Biblioteca de São Paulo (BSP), onde os facilitadores Albino Ribas, Célia Andrade e Maraléia Menezes apresentaram um método simples para publicação de livros de baixo custo em pequena escala.

Na fala inicial, a bibliotecária Maraléia ressaltou a importância de se buscar uma aproximação da biblioteca com a comunidade.  Ela vem fazendo isso na Biblioteca Poeta Paulo Bomfim em Itanhaém, município da Baixada Santista, onde foi criada uma pequena editora de livros artesanais. Em 2014, quase por acaso, conheceu o casal Albino Ribas, advogado, e Célia Regina de Andrade, escritora e poeta. Célia a procurou na biblioteca para fazer a ficha catalográfica de um de seus livros, e ali se abriu uma oportunidade de parceria. Com o passar do tempo, o casal criou o projeto Livro Alternativo, que usa material reaproveitado, reciclado ou de baixo custo. Assim, lançaram as obras Pausa para o Café (2017), Novos Haikais (2016), Enquanto Canto (2016) e Haicais (2015), todas escritas por Célia.

Maraléia destacou também que cabe à biblioteca resgatar a história popular da comunidade. Comentou ainda sobre direitos autorais, abordando questões técnicas como a ficha catalográfica e ISBN, entre outras.

Segundo Maraléia, “ a biblioteca pode contribuir para a divulgação dos autores locais, organizando o lançamento da obra e promovendo bate-papos literários, além de enviar releases para a imprensa, postar nas redes sociais e dar destaque na exposição de seu acervo”.

Em seguida, a escritora Célia falou sobre a relação entre autores e editoras, o que nem sempre tem final feliz, por questões de mercado.  Muitas vezes, a editora acredita que o autor não tem o perfil ideal ou que não é comercial o suficiente para cobrir seus custos. Por outro lado, a publicação independente com impressão em gráficas especializadas encarece o produto final para o autor, quem nem sempre tem recursos para arcar sozinho com todos os custos de produção do livro. Produzido em baixas tiragens, dificilmente o custo final fica abaixo de 20 reais.

Ressaltou ainda que, apesar do estigma que persegue os iniciantes, muitos autores independentes têm muita qualidade literária.  Lembrou que em 1918, Monteiro Lobato montou o embrião do que seria a Editora Nacional, uma das maiores editoras brasileiras durante décadas, publicando autores inéditos. Outro exemplo citado foi o do poeta João Cabral de Melo Neto que comprou uma pequena impressora para produzir obras de amigos como Carlos Drummond de Andrade.

 “Hoje muitos autores revelados em edições artesanais são reconhecidos pela sua qualidade editorial. E para ter mais visibilidade, recomendo que escritores inéditos façam parcerias com as bibliotecas locais. O olhar dos profissionais de biblioteca é importante para nós, editores alternativos. E a biblioteca é um espaço nosso que deve ser ocupado”, finalizou Célia.

Na parte da tarde, foi a hora de pôr a mão na massa, como é típico dos fab labs. Orientados pelo empreendedor Albino, autodidata na fabricação de livros, o público montou sua própria apostila do curso.

Ele destacou pontos importantes da produção, como a relação custo e benefício de cada tipo de papel, deu dicas simples de diagramação e ressaltou a importância de se criar um boneco, ou seja, antes de iniciar a produção, é muito importante fazer um protótipo para testar todo o processo.  Albino demonstrou que o custo dos livros produzidos dessa forma fica em torno de 2 reais cada.

Também explicou todas as etapas de produção utilizando o kit de equipamentos artesanais que desenvolveu para costurar, colar, grampear, prensar e refilar cada livro. “Essa é a parte mais fácil e divertida de fazer um livro. Aprendi muito vendo no YouTube.”, disse brincando com os participantes.  

Cada kit completo custa 350 reais e pode ser fornecido mediante encomenda.

Veja o vídeo:


Novas oficinas estão programadas para acontecer em Presidente Prudente (20/03), Birigui (21/03), Votuporanga (22/03) e Santos (27/03). Ainda restam algumas vagas.

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 DEPOIMENTOS

O auxiliar de bibliotecas em Guarulhos, Juan Carlos Pires de Andrade, quer replicar as informações que aprendeu na oficina do SisEB. “Adoro esse conceito de “faça você mesmo”. Quero levar isso para a comunidade de Cumbica e Bonsucesso. A ideia é criar uma célula e ir avançando aos poucos”.

Já Maria Ediméia Ferrer, bibliotecária do CEU Aricanduva, afirmou que o interesse dela é pessoal e profissional. “Aprendi técnicas para consertar e reparar livros, coisas que podemos fazer por contra própria como colar e costurar. Achei bem interessante”. Ela, que também é contadora de histórias, já criou um livro em tecido e pensa agora em adotar o formato tradicional de papel.

Os estudantes da Universidade de São Paulo (USP) Daiane Lima dos Santos e Felipe Bortoluzo também gostaram da atividade e ressaltaram seu aspecto prático. “Tenho interesse em conhecer o maquinário, programas de editoração e pessoas que publicam livros”, disse Daiane. Felipe ressaltou  a informalidade do curso e afirma que está indo neste tipo de oficina para aprender a criar um Fab Lab. “Pode ser o pulo do gato para publicar alguma coisa minha ou de amigos”.