“Babem nos livros!” Com essa “brincadeira”, os escritores que participaram do “Webinar Prêmios e festivais literários como políticas públicas”, realizado na noite de 23 de junho, ressaltaram a importância da dessacralização dos livros, destacando a criação de conexões e manutenção de todos os pontos da cadeia deste setor: da produção das obras até a relação com o público leitor. O evento, mediado por Patricia Anunciada, fez parte da programação do Prêmio São Paulo de Literatura 2020, das comemorações dos 10 anos da SP Leituras e contou com os premiados autores Aline Bei, Estevão Azevedo e Rafael Gallo.

Com 129 participantes, representando 47 municípios de 12 Estados brasileiros, o encontro girou em torno dos prêmios e festivais como ações de estímulo aos novos talentos e de fortalecimento das políticas públicas do livro e da leitura. Os escritores falaram sobre a produção e a divulgação literária brasileira e trataram do diálogo entre quem escreve e comunidades, como ferramenta de mediação cultural, de formação de comportamentos leitores e de incentivo à produção literária. Pierre André Ruprecht, diretor executivo da SP Leituras, abriu o evento online, destacando a alegria da atividade acontecer na data especial de celebração dos 10 anos da Organização Social. A entidade, como ressaltou, tem trabalhado em defesa da cultura, da leitura e da literatura, pedras de toque da cidadania. Para demonstrar o que vem sendo feito pela SP Leituras, foi exibido um vídeo que você pode conferir, clicando aqui (no site, também é possível encontrar outras informações sobre as atividades da “aniversariante”).

Patricia Anunciada fez de sua mediação também espaço de testemunho, já que, entre suas atividades, atua como professora da rede municipal, em Pirituba, bairro da zona Noroeste da capital paulista. Ela deu detalhes do Prêmio São Paulo de Literatura e falou sobre a importância da circulação destas obras premiadas em bibliotecas públicas, em especial. Por vezes, segundo ela, este é o principal elo entre o público leitor e a descoberta destes livros. Na opinião de Patricia, muito se fala de clássicos e de bestsellers e é importante que haja lugar para os autores novos. Para ela, essa relação entre obra e leitor acaba indo além do prêmio propriamente dito, em encontros de aproximação entre escritores e o público, promovidos em espaços públicos ou até mesmo nas escolas, momentos tão importantes e especiais para todos! Esta descoberta por causa de premiações foi destacada inclusive por uma dos participantes durante o encontro. Florbela Ribeiro contou que conheceu o livro “O peso do pássaro morto”, de Aline Bei (uma das painelistas) na Biblioteca de São Paulo (BSP), quando levou a filha para brincar por lá. “Muitas pessoas vão à biblioteca para outras atividades que não buscar livros. Mas se a disposição deles for de fácil acesso, como no caso dos livros do Prêmio São Paulo que estavam bem em frente à escada, podem atrair os frequentadores gerais. No meu caso, que folheei o livro da Aline e gostei tanto que comprei depois”.

Aline Bei, Estevão Azevedo e Rafael Gallo defenderam fortemente a presença das obras com destaque nas bibliotecas, em especial nas públicas. Segundo os escritores reforçaram, estas premiações e festivais contribuem não só para a manutenção (e às vezes até mesmo sobrevivência) do trabalho dos próprios profissionais da escrita, mas também conferem estímulo importante para o prosseguimento na área. Estevão, por exemplo, lembrou de seu primeiro projeto com o PROAC (Programa de Ação Cultural), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e das portas abertas, depois das premiações e participações em festivais. “O que dá o status ao escritor é o leitor”, ressaltou. A maior alegria é saber que você está chegando ao público, sendo lido, como disse, e estas homenagens ajudam neste sentido. Referindo-se ao mestre Antonio Cândido, Estevão defende que a literatura é um direito humano, que ela nos capacita e, assim, também deve ser garantida pelo Estado.O escritor citou ainda suas experiências com o Viagem Literária, programa do SisEB, e de seus emocionantes encontros com os leitores em bibliotecas do interior, muitas delas bem pequenas e quase sem estrutura.

Rafael Gallo engrossou o discurso comum entre os painelistas, falando de suas vivências em bate-papos com o público na BSP e na Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL). Para Rafael, as políticas públicas, através de prêmios e de outros mecanismos, devem democratizar esse olhar empático que os livros oferecem. “Se você estende a ponte, ela fica”, dizia ele, traçando um paralelo como se as premiações fossem aquele amigo que indica este ou aquele título. Aline foi além e salientou que essa dessacralização tratada durante o encontro não deve ser só do livro, mas também do autor. Para ela, as premiações promoveram encontros com outros escritores que só foram possíveis por causa dessas iniciativas. Aline lembrou de, como escritora iniciante premiada, participar da mesma mesa de Valter Hugo Mãe na Feira do Livro de Guadalajara, por exemplo. Quer saber mais sobre o encontro? Em breve, você poderá conferir a íntegra do webinar em nosso canal do Youtube, onde é possível encontrar palestras etc.

Saiba mais sobre os escritores e a mediadora:

Aline Bei nasceu em São Paulo (SP), em 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena. Foi colunista do site cultural Livre Opinião – Ideias em Debate, editora chefe do site cultural OitavaArte e escritora convidada da Primavera Literária de 2018 da Sorbonne Université, França, mesmo ano em que participou da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, México. Em 2019, integrou as bienais do livro do Rio de Janeiro e de Alagoas. “O peso do pássaro morto”, finalista do Prêmio Rio de Literatura e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Toca, é o seu primeiro livro.

Estevão Azevedo nasceu em Natal (RN), em 1978. É mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo, escritor e editor. É autor do volume de contos “O som de nada acontecendo”, dos romances “Nunca o nome do menino”, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e “Tempo de espalhar pedras”, finalista do Prêmio Oceanos, eleito Livro do Ano pelo Prêmio São Paulo de Literatura e também publicado na Itália e em Portugal, e do ensaio crítico “O corpo erótico das palavras: um estudo da obra de Raduan Nassar”.

Rafael Gallo nasceu em São Paulo (SP), em 1981. É autor de “Rebentar” (Record, 2015), romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2016, e de “Réveillon e outros dias” (Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012. Tem ainda diversos textos em antologias e coletâneas, incluindo publicações na França, nos Estados Unidos, no Equador e em Moçambique.

Patricia Anunciada é formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-graduada em Literatura pela Universidade Estadual de Campinas e mestranda em Literatura pela Universidade Federal de São Paulo. Atua como professora da rede municipal de São Paulo. Possui canal no YouTube, chamado “Letras Pretas”, no qual divulga obras que se adequem à lei nº 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira. Participou das antologias “O Feminino na poesia: Antologia poética de professoras poetas e escrituras negras: A mulher que reluz em mim”.

 

Confira a galeria de imagens do webinar: