Realizado em 19 de junho, o “Webinar Por mais escritoras negras – A importância da inclusão de obras de autoras negras nas bibliotecas” contou com mais de 500 inscritos, ultrapassou os 250 participantes, representando cerca de 160 municípios de 24 Estados brasileiros. Os números demonstram o interesse no tema que foi detalhado por Francilene Cardoso, Neide Almeida e Charlene Lemos, com mediação do Coletivo Mulheres Negras na Biblioteca.

Carine Souza e Juliane Sousa, do Coletivo, abriram o encontro ressaltando os objetivos do grupo do qual fazem parte e contando detalhes desta construção que visa, em especial, estabelecer um reparo social no que encontram no meio literário. Carine destacou a necessidade do enfrentamento de uma dura realidade, a de que o Brasil é racista, como salientou. E que esse movimento de descoberta e destaque de escritores negros deve passar pelas ações da própria população (negra) que, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), compõe 54% dos brasileiros. Esta responsabilidade é de todos, não só da mediação de leitura, mas da biblioteca – em especial da pública – que precisa, segundo elas, se responsabilizar por demonstrar seu espaço paras as meninas pretas que lá estão. De acordo com as responsáveis pelo Coletivo, faz-se necessário pensar em meios e estratégias para consolidar esta expansão, citada no título do webinar. E, como disse Juliane, a sociedade vive uma espécie de negação da existência dos negros e ter que dizer que “vidas negras importam” (referindo-se ao movimento americano que ganhou repercussão mundial) é algo que parece surreal no tempo que vivemos.

Neide Almeida trouxe para o encontro sua experiência como escritora e também pesquisadora. Ela relembrou seus caminhos de introdução no universo da literatura e, posteriormente, com a produzida por escritores negros. Neide contou que seu primeiro contato foi com “todos” os livros, sem restrição, em uma biblioteca do seu bairro, na capital paulista, na década de 60. Foi só com 11/12 anos que ela começou a perceber os escritores negros e, a partir daí, deu-se conta da escassez e até ausência em diversos casos desta representatividade. Segundo ela, o imaginário à época daquela menina negra, que vivia rodeada de bordadeiras, costureiras etc. (de quem muito se orgulha) acabou ficando “interditado” para a presença de mulheres escritoras, por exemplo. E como é importante que todos tenhamos representatividade e sejamos ouvidos e lidos!, como ressaltou ela.

Por sua vez, Charlene Lemos compartilhou detalhes sobre sua vivência na formação e funcionamento da Biblioteca Pública Maria Firmina dos Reis, localizada na Cidade Tiradentes, em São Paulo (SP). O espaço leva o nome daquela que é considerada a primeira romancista abolicionista negra do Brasil e tem publicados, entre outros, “Úrsula” e “Cantos à beira-mar”. Inaugurada em julho de 2013, a biblioteca possui acervo temático em Direitos Humanos e conta com programação que reúne diversas atividades ligadas à cultura negra, como clubes de leitura, por exemplo. Hoje, ela é parte do Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes. As histórias dos dois equipamentos, como destacou, se misturam, mas nascem da mesma raiz: a mobilização da comunidade por um espaço de leitura no bairro.

Maria Firmina dos Reis era maranhense, exatamente como Francilene Cardoso, outra das palestrantes do webinar. É de Francilene o livro “O negro na biblioteca”, que resulta de sua tese. No encontro,  ela reforçou a necessidade de refletirmos sobre a representatividade dos negros nos acervos e também nas bibliotecas, como um todo, referindo-se aos mediadores, funcionários e todos, em geral, em seu papel cidadão. Como em seu estudo, Francilene ressaltou a importância do processo de construção de identidades nas bibliotecas públicas, enquanto equipamentos do Estado. Para ela, o profissional da informação, o bibliotecário pode contribuir e muito com a construção ou reconstrução da história da qual os negros fazem parte.

As palestrantes, ao enfatizarem a necessidade de expansão de espaço para escritores negros nas bibliotecas, deixaram claro que não querem, de forma alguma, que deixemos de ler autores brancos. As afirmações todas foram no sentido de ampliar o espectro das escolhas na leitura. E esta é uma responsabilidade de todos como cidadãos e educadores, como salientaram. Saiba mais sobre as mulheres que comandaram o webinar (que contou com a tradução em Libras de Mildes Ribeiro e Charles Labeta):

Francilene Cardoso é graduada em Biblioteconomia pela UFMA, com doutorado na Escola de Serviço Social da UFRJmestrado em Ciência da Informação pela UFF e especialização em História da África e do Negro no Brasil pela Universidade Candido Mendes. É autora do livro O negro na biblioteca: mediação da informação para construção da identidade negra, publicado em 2015.  

Neide Almeida é escritora, poeta, educadora, pesquisadora, produtora e gestora cultural. Socióloga pela FESPSP, mestre em Linguística pela PUC-SP e especialista em Gestão Cultural Contemporânea pelo Itaú Cultural. Atua na área de direitos humanos, especialmente no campo da leitura e das relações étnico-raciais. Trabalhou no programa Prazer em Ler do Instituto C&A, no Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil, e atuou no GD do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de São Paulo como membro da sociedade civil. Em 2018 integrou o júri final do Prêmio São Paulo de Literatura. É autora do livro de poesia Nós: 20 poemas e uma Oferenda (Ciclo Continuo Editorial2018). 

Charlene Lemos é graduada em Biblioteconomia pela Unesp, mestre em Ciência da Informação pela ECA-USP diplomada em Gestión de Bibliotecas Públicas pela Universidad Alberto Hurtado (Chile). Coordenou a Biblioteca Pública Maria Firmina dos Reis e atualmente é coordenadora da Biblioteca Pública Raul Bopp, ambas da Prefeitura de São Paulo, e docente no curso de pós-graduação em Gestão de Bibliotecas Escolares. Atua na área de Ciência da Informação, com ênfase em Cultura e Informação, e organiza eventos literários, culturais com foco na participação comunitária, formando redes com o território local. 

Coletivo Mulheres Negras na Biblioteca 

Carine Souza é graduanda em Letras, técnica em Biblioteconomia, revisora e preparadora de textos, produtora cultural e uma das idealizadoras do projeto Mulheres Negras na Biblioteca.  

Juliane Sousa é formada em Letras pela Unifesp, produtora cultural, ambientalista, jornalista, apresentadora de rádio e televisão, roteirista, poeta e uma das responsáveis pelo projeto Mulheres Negras na Biblioteca. 

Beatriz Gonçalves Nogueira dos Santos é graduanda em Biblioteconomia pela USP. Uma das responsáveis pela inclusão das temáticas informação étnico-racial na Biblioteconomia” e “importância da inclusão de obras de escritoras negras nos acervos das bibliotecas” na Semana de Biblioteconomia ECA -USP 2018. 

Perdeu este webinar? Fique atento em nosso programação recheada de eventos online em http://siseb.sp.gov.br/agenda/. Em breve, a íntegra do encontro estará disponível em nosso canal do Youtube, onde é possível encontrar outros encontros como este.

Confira nossa galeria de imagens do “Webinar Por mais escritoras negras – A importância da inclusão de obras de autoras negras nas bibliotecas”: