A bibliotecária francesa Geneviève Patte subiu ao palco do Seminário Biblioteca Viva no início da tarde para uma palestra sobre como atrair o público infantil para a leitura. Autora do best-seller Deixe que leiam, publicado no Brasil pela Editora Rocco, ela já trabalhou com organizações internacionais como IFLA, UNESCO e IBBY e realizou os primeiros seminários internacionais sobre bibliotecas para crianças e jovens nas regiões em Leipzig, na Alemanha (1981), Caen, na França(1990), e Bangkok, na Tailândia (1999. Foi indicada ao Astrid Lindgren, o mais prestigiado prêmio da literatura infantojuvenil do mundo. Dirigiu durante 35 anos a associação La Joie par les Livres, responsável por uma biblioteca infantil na periferia parisiense que contribuiu para o desenvolvimento e difusão de bibliotecas para crianças e jovens em muitos países. Criou o Centro Nacional do Livro para Crianças e a revista do Livro para crianças, publicada atualmente pela Biblioteca Nacional da França.

Confira alguns ensinamentos que a mestre deixou de testemunho aqui no Brasil:

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Comecei a trabalhar em bibliotecas nas periferias das grandes cidades, em bairros pobres. Percebi que as crianças adoravam a leitura. Eu acho que o verdadeiro leitor é uma pessoa livre. E as crianças são grandes leitores. É fácil pegar um cesto com os nossos melhores livros, fazer uma pequena biblioteca num muro. É uma coisa simples, direta e que não custa dinheiro. Temos duas riquezas, o livro e a biblioteca. Não precisamos de nada sofisticado, a simplicidade abre portas, faz sonhar.

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Acredito que quando lemos para uma criança, ela tem consciência de que vamos lhe dar alguma coisa, que vamos deixar as nossas ocupações sérias para ler e compartilhar. A criança fica tocada pois vê que o adulto tem prazer de estar com ela e com o livro. Por isso temos que escolher de maneira cuidadosa estes livros. Como consequência, o adulto fica emocionado de ver que seu filho é sensível. Já a criança fica emocionada de ver o adulto tocado por estar naquele mundo infantil. É por isso que damos tanta importância na leitura de crianças.

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Os adultos leem pelo prazer e pela experiência. Já crianças menores e maiores não sabem que a leitura é algo que as transforma em bons alunos, mas sabem que o que é uma experiência. Eles nos ajudam a ler o livro pois prestam atenção aos detalhes. E nós devemos aceitar as suas interpretações. Não devemos fazer correções ou dizer que deve ser do nosso jeito. A gente tem que aceitar o jeito que elas mesmo descobrem. Não estamos na sala de aula, pois a biblioteca não serve para isso. A nossa missão não é corrigir ou bloquear a criança.

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É preciso ter prazer de compartilhar com as crianças. Uma criança e um adulto vão ter leituras diferentes. Temos que dar prioridade para a leitura delas. Deixemos as crianças viverem a sua história. Quando vamos ao cinema e ao teatro, cada um vê de seu jeito. E a criança tem necessidade de ter essa leitura, ela mesmo lê e relê. Sabe que entre as duas capas de um livro há páginas, que é uma experiência e um suporte imutável. Assim a criança torna-se também um autor.

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As crianças muitas vezes não vêm na biblioteca. Elas não sabem que têm um lugar por lá. Elas não se integram, não fazem bagunça. O que temos que fazer é sair da biblioteca e ir onde elas estão, onde elas brincam. E quando vamos para lá, elas vêm sozinhas. Elas querem ler junto conosco. E temos que estar num lugar onde os pais possam nos ver. É preciso ser visto, ter testemunhos. E temos que ir nos lugares com mais problemas, com a situação mais difícil. Conheci um garoto que a mãe chamou para almoçar. Ele disse que só iria depois, pois a história não tinha acabado.