Convidada do Seminário Biblioteca Viva, a escritora e jornalista Marina Colasanti foi a última atração do evento. Neste fechamento, ela contou causos de infância durante a Segunda Guerra Mundial na Itália, falou da sua relação afetiva com as bibliotecas e livros, respondeu às perguntas do público, falou de feminismo e, como uma cereja do bolo, declamou uma de suas histórias, o que emocionou todos os presentes.

Priorizou em sua fala, a relação com as bibliotecas de sua vida. Disse que durante a guerra, acostumou-se a não ter biblioteca formal. No conflito armado, as pessoas não levavam mais do que a roupa do corpo e uma pequena mala com alguns objetos. Mas lembra até hoje de uma coleção de livros clássicos editada pelo regime fascista em que pode conhecer autores como Miguel de Cervantes, Alexandre Dumas, Edgar Allan Poe, Homero, entre outros. Afirma que com palavras não consegue transmitir como aquelas obras a mudaram por dentro, a evolveram, a fizeram atravessar um portal.

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“Essa biblioteca invadiu a nossa vida, mas os livros ficaram para trás. Mas essa mesma biblioteca viajou com a gente, como algo interno”.

Ainda sobre o tema, contou que ao longo da vida foi agregando outras bibliotecas. Comprou muitos livros sobre feminismo, sobre questões de gêneros, sobre o amor, sobre as relações humanas, sobre o casamento, sobre a colonização italiana na África. Mas uma coleção ficou apenas no desejo.

Era a biblioteca de seu avô, historiador de artes. Lá, haviam tomos e tomos de livros sobre moda, arquitetura, desenho e ilustrações. Todos encadernados em capa de couro, com letras em dourado. Após a morte dele, esse acervo foi herdado para seu tio.

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“Nunca almejei herança, mas queria ter ficado com biblioteca herdada pelo meu tio. Eu morei dois anos com ele e com minha avó, ficava em Roma no inverno. Meu tio era cenógrafo e figurinista e acrescentou a coleção revistas de moda do século XIV. Quando era boazinha, eu tinha direito a ir na biblioteca. E eu ficava a noite folheando esses livros de história da arte e comendo cerejas. Essa biblioteca que eu sonhava herdar foi prometida ao meu irmão, mas acabou sendo vendida em leilão. Se tivesse ficado com ela, gastaria uma pequena fortuna para trazê-la ao Brasil. Mas não tem problema. Ela ainda é minha, porque ninguém esteve lá com tanta paixão”.

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Marina tem mais estórias sobre bibliotecas. Disse que a internet foi uma revolução nos costumo e que hoje é verdadeiramente uma grande biblioteca. Mas que para usá-la, é necessária alguma formação. Elogiou também a Biblioteca do Congresso Americano, a maior do mundo. Disse que os americanos têm uma filial na Índia e, quando findou a ditadura no Brasil, mandaram para cá livros que foram censurados.

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“O verdadeiro valor de uma biblioteca está no bibliotecário. O livro não é só uma capa, mas sim um universo”.

Disse também que toda a pessoa necessita de leitura. Que saber decodificar um texto é uma questão de civilidade. Mas a literatura é outra coisa, têm a ver com interpretação, com variadas leituras. Para fomentar esse gosto, ela acredita que existe o livro certo na hora certa. É o caso de sua filha, que não tinha o hábito da leitura. Até ficar doente e se encantar por Eu, Christiane F., 13 Anos, drogada e prostituída, um clássico dos anos 80. A partir daí a filha nunca mais parou de ler e hoje é roteirista.

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“Muitos professores me perguntam como fazer as crianças lerem? Se ele não sabe, ele não tem paixão. Existe uma troca que só acontece quando se têm paixão, no olho no olho. Um bom leitor se faz no acerto de um livro”, finalizou.