Entre o terceiro trimestre de 2012 e o quarto de 2013, a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, por intermédio da SP Leituras – Associação Paulista de Bibliotecas e Leitura, realizou uma série de oficinas de mediação de leitura e escrita criativa no Presídio Militar Romão Gomes que abriga policiais infratores do Estado de São Paulo.

Foram ações do Praler – Prazeres da Leitura, um programa que desde 2008 promove o gosto pela leitura e escrita, atendendo populações em situação de vulnerabilidade social. Para tanto, são contratados profissionais experimentados, com formações e especializações diversas, que ministram oficinas adaptadas às características de cada instituição. Estabelecer o diálogo literário com pessoas que, em geral, têm pouco contato com a literatura é um dos principais desafios do programa.

Na edição 93 da revista ESTUDOS AVANÇADOS publicada pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, distribuída em agosto, a mestre e doutora em Literatura Comparada pela FFLCH-USP, Ana Vieira Pereira, faz um relato surpreendente – e às vezes, emocionado – sobre sua experiência naquele presídio.

Trabalhar com policiais presos causou-me, num primeiro momento, profundo desconforto. Tratei de desmontar os vários preconceitos com a eficácia que me foi possível antes desse primeiro encontro – corpos policiais não eram meu desejo de trabalho nesse momento, tendo bastante dificuldade em percebê-los fora do campo da violência, da arbitrariedade e da desonestidade. Mesmo assim, em grande parte os preconceitos lá ficaram, resistentes às minhas tentativas de avaliação fria e racional, como é da natureza das coisas que pensamos saber e conhecer antes de lhes termos posto os olhos em cima. – descreve a educadora.

Além do trabalho publicado na revista (que você pode ler aqui), as oficinas estão materializadas no livro Mentes Livres- Experiências literárias em um presídio militar, lançado no final de 2014. Reunindo uma coletânea de textos dos internos da instituição, a obra foi distribuída entre seus autores, familiares e autoridades durante a solenidade de encerramento do ciclo de oficinas. A publicação também chegou a dezenas de bibliotecas vinculadas ao Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo (SisEB) em 2015.

Os resultados de ações de mediação de leitura e escrita nem sempre aparecem imediatamente. Entretanto, o poder transformador da educação e da literatura revela-se presente a todo instante. Basta acreditar e ter olhos para ver. Mudar é difícil, mas é possível – como sempre ensinou Paulo Freire.

Cada indivíduo tem sua história e cada história tem seu cheiro.
(Marco Aurélio Pereira Lima, Mentes Livres, p.50)